
O que mais me chamou a atenção em Procurando Emily foi a sensação de estar assistindo a um daqueles filmes independentes que marcaram o início dos anos 2010, especialmente entre 2010 e 2012. Existe uma atmosfera muitoparticular nessa época do cinema: personagens jovens tentando entender os próprios sentimentos, romances que surgem de situações inesperadas, diálogos que transitam entre o humor e a melancolia e uma trilha sonora que parece traduzir tudo aquilo que os personagens vivem. Para mim, o filme recupera parte dessa identidade e desperta uma nostalgia muito específica, lembrando produções como A Arte da Conquista (The Art of Getting By), As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower) e Submarine. Elas nem contam a mesma história, mas compartilham essa sensibilidade de acompanhar pessoas tentando se entender.
Dirigido por Alicia MacDonald e escrito por Rachel Hirons, Procurando Emily é uma comédia romântica britânica que traz Owen, um jovem músico que conhece uma garota por quem se encanta imediatamente, mas acaba recebendoo número de telefone errado. Determinado a reencontrá-la, ele embarca em uma busca que se espalha pelo ambiente universitário e que ganha proporções inesperadas.
Emily Raine, vivida por Angourie Rice, tenta compreender oamor de maneira racional, científica e até cética. Para ela, o comportamento de Owen é uma oportunidade perfeita para desenvolver sua pesquisa acadêmica, que parte da hipótese de que o amor romântico pode ser uma espécie de loucura temporária e um resquício da evolução humana.
Sigmund Freud, autor da frase de abertura do qual o amor seria um estado de psicose temporária. Essa ideia funciona como ponto de partida para a pesquisa de Emily e estabelece o conflito central da história: afinal, o amor é umaexperiência genuína ou uma construção psicológica que nos leva a idealizar pessoas que mal conhecemos? O filme brinca com essa questão por meio de reflexão.
Também gostei da maneira como o roteiro trabalha os diálogos. São responsáveis por revelar as diferenças de personalidade, as inseguranças e as contradições dos personagens. Há uma dinâmica interessante entre a sinceridade quase desajeitada de Owen e o olhar analítico de Emily, que tenta manter uma distância emocional enquanto participa cada vez mais da vida dele. O filme equilibra humor, constrangimento e amor.
Visualmente, senti uma conexão muito forte com aquela atmosfera dos filmes indies do início da década de 2010. Ele desperta a lembrança de uma época em que o o cinema trazia o jovem mais socialmente deslocado.
A trilha sonora também é fundamental para construir essa atmosfera. A música original foi composta por Morgan Kibby,com contribuições adicionais de Jonny Woodley. Em vez de funcionar apenas como acompanhamento, a composição origianl ajuda a conduzir as emoções das cenas. O álbum canções composições originais. Essas faixas se combinam com as músicas presentes no filme
Canções de bandas como Blossoms e W.H. Lung, além de músicas interpretadas pelo próprio Spike Fearn, aproximam a narrativa da cultura musical britânica. Entre os destaques estão There’s a Reason Why e Love Talk, do Blossoms, How to Walk e The Paintingof the Bay, do W. H. Lung, e Catch You Up, interpretada por Fearn e escrita por Antony Szmierek.
O longa me deixou feliz, traz uma sensação de paz, de esperança, poderia tranquilamente continuar naquela atmosfera durante mais tempo do que o filme é. O filme infelizmente teve uma passagem e repercussão tímida no Brasil
Procurando Emily questiona se realmente nos apaixonamos por quem alguém é ou pela imagem que construímos dessa pessoa, ao mesmo tempo que sugere que a imprevisibilidade dos sentimentos talvez seja justamente o que torna as relações tão significativas.






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