Ela me disse que a história de Sherazade era uma grande metáfora de um relacionamento amoroso.

Um dos dois sempre entende que quando o desejo chega ao fim, é hora de assassinar aquele ou aquela a quem devotamos o nosso amor. O fim do desejo ou a traição da nossa confiança são os únicos caminhos possíveis no amor, e disso entendia perfeitamente o sultão persa Schariar, que mandava executar cada uma de suas esposas na manhã seguinte à noite de núpcias. Temendo uma nova traição e para evitar qualquer possibilidade disso acontecer, o sultão satisfazia todos os seus desejos numa única noite, e pra evitar que esse desejo se renovasse lhe deixando vulnerável a uma nova traição, mandava que fossem executadas cada uma delas. Assim sucessivamente o sultão vivia a ilusão do amor perdido em novos romances que se desfaziam com a mesma intensidade que se formaram.
Entretanto, conhecemos a história e sabemos como isso durou até que o sultão conhecesse Sherazade, a única mulher que foi capaz de fazer o sultão renunciar à sua angústia de sua própria realidade, ao seu rancor pela sua própria natureza e pela natureza de todas as amantes que poderia conhecer. Ela entendeu o seu destino quando foi escolhida a se tornar a mais nova esposa do sultão, já sabia do assombroso histórico do seu amante antes mesmo de se tornar sua esposa, mas também entendia a natureza humana melhor do que todas as outras e como havia uma chance de driblar esse destino.
Na primeira noite Sherazade conta ao Sultão uma história cativante, que intriga o homem ao ouvi-la. Percebendo o interesse particular do rei da Pérsia, a garota cria uma estratégia para tentar adiar o dia da sua própria execução: ela encerra a história num ponto crítico da narrativa, o que desperta a curiosidade do sultão, mas promete continuar somente no dia seguinte. Por um instante o medo e a angústia do sultão dão vazão à sua curiosidade. O desejo, que antes era desejo carnal, se desloca, o que não significa que ele tenha esquecido completamente o plano que deve seguir sempre: matar sua esposa no dia seguinte. Sendo assim ele não vê mal em adiar uma noite, para matá-la um dia depois. Mas o que jamais imaginaria é que Sherazade seria capaz de transformar uma noite em mil e uma noites – para sempre e uma noite a mais –, sempre contando novas histórias. Sem perceber, o sultão se apaixona por Sherazade e desiste de mandar executá-la, muito embora na sua própria fantasia ele sempre se lembre do acordo e do seu trauma pessoal, sabendo que em uma manhã fria ele deverá convocar a sua guarda real e mandar sua esposa para a morte. Todas as noites o sultão ama Sherazade sabendo que um dia irá assassina-la.
A ironia dessa história, ou melhor dizendo dessa metáfora, é que esse dia nunca chega.






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